CARTOGRAFIA MARINHA

Como o horizonte infinito que margeia as praias no Ceará, a relação da arte com o mar é vasta. Cineastas, fotógrafos, videomakers e artistas visuais nunca foram indiferentes ao tema. Num tempo pretérito, por exemplo, o ator e cineasta norte-americano Orson Welles deu início ao documentário It’s all true (Quatro homens numa jangada, 1942)1. O mestre Chico Albuquerque, por sua vez, mostrou fotografias realizadas na praia de Mucuripe no MASP (1952), enquanto um grupo de fotógrafos cearenses fez jorrar no livro Mar de luz (2000) o fulgor luminoso das praias do Ceará.  Certamente, encontram-se aqui narrativas épico-lendárias que tanto apontam para a morte e destruição como para a fertilidade e abundância do mar, no qual jangadeiros enfrentam a força das águas que molham corpos desnudos e velas estendidas ao vento. Coragem, destemor, solidão, medo, travessia e submersão transparecem nas ações de quem ousa flanar sobre a linha aquosa da vida em movimento.

Os fotógrafos Fernanda Oliveira e Sérgio Carvalho trafegam esse caminho por vertentes pouco vistas. Registram o ofício das mulheres pescadoras, lagosteiras, algueiras, catadoras e marisqueiras para que se garanta a transmissão de sua história. Deixam à mostra a existência da pesca artesanal feminina como um acontecimento que se espraia por círculos restritos e domínios mais amplos do País. Em tempos imemoriais, a atividade pesqueira era professada por homens – e as mulheres estavam confinadas ao espaço privado doméstico, em atividades não remuneradas.2 Porém, se as mudanças em curso e o tempo acelerado conservaram traços do passado no presente, hoje o conhecimento e a prática deste ofício surgem não de um pensamento hierarquizado ou de gênero, nem mesmo de conformismo. Ao contrário, o que se vê é que as rupturas e permanências no contexto cultural servem para ampliar o campo de possibilidades de seu devir.

As dimensões social e política somam-se às relações interpessoais: o foco em Cleomar, Márcia, Maria Cabelão e Sidnéia, em especial, nos permitem apreender traços pessoais de cada uma destas sereias, que reverberam em todo o ensaio fotográfico. No palco do cotidiano, temos chance de vê-las empurrando suas jangadas nos bancos de terra com apetrechos para a coleta –  redes, bacias, baldes, caixas de plástico –,  enquanto suas mãos treinadas escavam a terra à procura de algas e mariscos que garantam a sobrevivência de sua prole. Além disso, os artistas Tibico Brasil e Mika Holanda complementam a abordagem ao exibir um vídeo no qual um diálogo com as mulheres e fotógrafos aparece de maneira mais vívida, enquanto os textos da jornalista Iana Soares, cheios de palavras poéticas e encantadas falam das sereias embaladas pelas ondas dos seus sonhos.

Tudo isso é concebido de maneira poética pelos autores. Ou seja, estamos diante da natureza irredutível da arte e de seu caráter singular, que potencializa não só rupturas com a experiência sensorial do mundo, como reconfigura a ordem das coisas, conferindo-lhe uma dimensão pública. Assim, não só o elo do trabalho é revelado, mas também o teor interpretativo plasmado nas fotos, que impulsionam o ensaio em múltiplas direções. Se olharmos as páginas do livro, por exemplo, teremos a chance de ver paisagens perdidas no horizonte luminoso –  em tudo opostas à dureza do concreto –  que nos distancia do frenesi urbano em que estamos imersos.

Para além disso, os autores dão ênfase ao assunto fotografado através das imagens em movimento, que dispostas em sequência capturam instantes sincopados das ações femininas em favor de uma visualidade mais eloquente. São gestos que ganham densidade nos movimentos (minúsculos), pois que afirmativos traduzem a luta aguerrida das mulheres contra a extração indiscriminada e a carcinicultura (pesca do camarão), que trazem evidentes danos ao meio ambiente.

Fotos e vídeos são, a um só tempo, atravessados pela força da linguagem, onde um vocabulário próprio une informação à sintaxe poética. E se a fotografia faz uma clara remissão ao real, justamente por isso mostra-se um instrumento valioso para dialogarmos com o mundo à nossa volta. Este é um momento em que a sensibilidade dos artistas aflora para dar sentido à matéria que vaga por duração incerta. Somos contaminados pela luz, pela composição, pelo domínio pleno da linguagem que nos leva a um lugar em que a narrativa visual proposta torna-se pensamento crítico. A sensação é que algo escorre entre as brechas do visível. Não há mais o impasse daqueles que acham louvável estetizar o cotidiano represado pelos grilhões formais da linguagem. Pensemos. O que está em pauta, neste momento, é uma história liberta do esquecimento.

Angela Magalhães e Nadja Fonseca Peregrino
Curadoras e pesquisadoras associadas

Notas

  • Em setembro de 1941, quatro jangadeiros cearenses percorrem o litoral brasileiro, numa extensão de 2.500 km, para, no Rio de Janeiro, denunciar a sua precária condição de trabalho. Esse feito foi publicado na revista Time (1941, USA) e chamou a atenção do ator norte-americano Orson Welles, que incluiria o episódio no filme It´s all true (É tudo verdade), uma trilogia baseada em histórias reais, filmadas no Brasil, para o governo dos Estados Unidos promover uma política de boa vizinhança com o nosso País. Welles ficou seis meses no Brasil e rodou parte da trilogia no Ceará. O fotógrafo Chico Albuquerque, um dos donos da Aba-Film e pioneiro da fotografia publicitária no Brasil, participou do projeto. O filme foi editado parcialmente sete anos depois da morte de Orson Welles (1915-1985).
  • Se a participação feminina nos movimentos sociais das primeiras colônias de pescadores no país (XIX) era inexpressiva, ao fim dos anos 60 do século XX, ações políticas foram implementadas através do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), em Pernambuco, para a conquista de direitos trabalhistas de homens e mulheres, uma das primeiras iniciativas de reconhecimento da participação feminina na pesca artesanal do Brasil.

MARINE CARTOGRAPHY 

The relationship between art and the sea is as vast as the infinite horizon bordering the beaches in Ceará State. Filmmakers, photographers, video producers and visual artists have never been indifferent to the theme. In the past, for example, the North American actor and filmmaker, Orson Welles, started the documentary It´s All True (Four men in a ‘jangada’ boat, 1942)1; a master of photography, Chico Albuquerque displayed photographs taken at the Mucuripe beach at the São Paulo Museum of Art – MASP (1952); while a group of Cearense photographers outpoured the luminous glow of the beaches in Ceará in the book A Sea of Light (2000).  One will certainly identify here the legendary epic that highlights death and destruction as well as fertility and abundance in the sea, where the jangada sailors fight the strength of the water hitting their naked bodies and the sails flapping in the wind. Courage, fearlessness, loneliness, fright, crossings and submersions come to light in the actions of those who dare stroll along the watery surface of life in movement. 

Photographers Fernanda Oliveira and Sérgio Carvalho walk this path through rarely seen routs. They record the work of women who catch fish, lobster, algae and shellfish – in places such as Fortim, Amontada, Itarema, Baleia,Tatajuba and Icapuí – to ensure their story is  passed down. They expose the existence of women artisanal fishing as a phenomenon that has spread over restricted circles and more ample domains in the country. In the distant past, fishing was an activity performed by men – and women were confined to the privacy of their homes, doing unpaid jobs.2 However, if the ongoing changes and the fast pace of life have kept traces of the past in the present, today’s knowledge and practice of such activity do not arise from a hierarchic thought or gender, not even from conformism. On the contrary, ruptures and continuities in the cultural context help to expand the range of possibilities for its future. 

Interpersonal relations add to the social and political dimension: the focus on Cleomar, Márcia, Maria Cabelão and Sidnéia, especially, allows us to assimilate personal traits of each of these mermaids, which reverberate throughout the photo essay. In their daily lives, we have the chance to see them pushing their jangadas onto the sandbanks, equipped with fishing accoutrements – fishing nets, plastic basins, buckets, plastic containers – while their skilled hands dig algae and shellfish to guarantee the survival of their offspring. Last but not least, artists Tibico Brasil and Mika Holanda complement the approach by exhibiting a video showing a more vivid and expressive dialogue with the women and the photographers, while Iana Soares’s texts, filled with poetic and enchanted words, speak of mermaids rocked in the waves of their dreams. 

This is all conceived in a poetic way by the authors. That is, we are facing the irreducible nature of art and its unique feature, which not only enhances ruptures with the sensorial experience of the world, but also reconfigures the order of things, conferring it a public dimension. Thus, not only the link of the work, but also the interpretative content enshrined in the photos is revealed, which will provide multiple directions for the essay. When we browse through the book, for example, we have the chance to see landscapes lost in the luminous horizon – in total opposition to the hardness of concrete – which makes us withdraw from the frenzy in which we are immersed. 

Moreover, the authors give emphasis to the subject of the photograph through moving images, which, arranged in a sequence, capture syncopated moments of the women’s actions aiming at a more eloquent visuality. These gestures gain density in the movements (minuscule) and, being affirmative, they translate the fierce fight of the women against indiscriminate extraction and shrimp farming, which cause obvious damages to the environment. 

Photos, videos, all at once, are permeated with the strength of language, where specific vocabulary unites information and poetic syntax. And if the photography clearly refers to reality, for that very reason it proves itself a valuable tool in the dialogue with the world around us. That is when the artist’s sensibility emerges in order to make sense of the matter that wanders for an undetermined amount of time. We become imbued with the light, the composition, the full command of the language that takes us to a place where the proposed visual narrative turns into critical thinking. The feeling is that something slips through the cracks of the visible. There is no longer the impasse of those who think it praiseworthy to aestheticize daily matters imprisoned in the formal fetters of language. Think about it. What is at stake at the moment is a story free from oblivion. 

Angela Magalhães/Nadja Fonseca Peregrino
Curators and associated researchers

Notes

  • In September, 1941, four Cearense jangada sailors traveled 2,500km along the Brazilian coast down to Rio de Janeiro to report the precarious working conditions of the sailors.  This was published in Time (1941, USA) and called the attention of the North American actor, Orson Welles, who would include the episode in the film It´s All True, a trilogy based on true stories and shot in Brazil as part of the United States’ ‘Good Neighbor Policy’ with Brazil. Welles stayed in Brazil for six months and shot part of the trilogy in Ceará. Photographer Chico Albuquerque, one of the owners of Aba-Film and a pioneer in advertising photography in Brazil, participated in the project. The film was partially edited seven years after Orson Welles’s death (1915-1985).
  • If women’s participation in the social movements of the first fishermen’s colonies in the country (19th century) was insubstantial, at the end of the 60’s, in the 20th century, political actions were implemented through the Fishermen Pastoral Council (CPP), in Pernambuco state, in order to guarantee labor rights for men and women. This was one of the first initiatives aiming to recognize the participation of women in artisanal fishing in Brazil.