SIDNÉIA

Sidnéia Lusia da Silva, 37 anos
Redonda
Icapuí, Ceará, Brasil

Do barco às liberdades

Antes de ser mulher, Sidnéia foi barco. Raimundo Sebastião teve treze filhos, viveram oito. A do meio batizou a madeira que o levava para o mundo e o trazia de volta com beijupirá, arraia, biquara, ariacó, serra, agulha, lagosta, cioba, peixe-gato, camurupim, guaiuba, bicuda, camurim e cangulo. Na Redonda, a canção era antiga, o verso machucava: “mulher no mar dá azar”. A menina era surda para preconceito, mas cedo escutou o burburinho das ondas. Aos dez, arriscou desfazer a maldição. Na primeira viagem, não vomitou, e houve quem dissesse: essa daí nasceu no mar.

Desse dia em diante, foi guiada pelo desejo. Entre o céu e a água, desenhou a liberdade. Da ponta do barco, aprendeu a voar ao contrário. Para apanhar lagosta no fôlego, dobrou de tamanho, e já não é baixinha. Mais de 27 anos de rasos e profundos, solta o indizível com os olhos escuros que atravessam o horizonte: “Lá dentro, sinto uma coisa que só eu sinto”.

Depois de ser da Redonda, Sidnéia foi do mundo. Quando decidiu ser criadora de si, o mar a jogou para longe. Em 2007, depois de fazer um documentário sobre “uma pescadora rara no litoral do Ceará”, ela mesma, foi convidada para um festival de cinema e passou um mês em Estocolmo, na Suécia. No frio, tremeu em sorrisos novos. Reencontrou a autoestima que minguara na violência de quem não a queria livre e longe da água. No avesso do Atlântico, cicatrizou e segurou outra vez na mão da menina que sempre teve a coragem no infinito.

Se o mar é verde, azul e preto, ela também pode ser pescadora, cineasta, massoterapeuta, jogadora de futebol, kitesurfista, escorpiana com ascendente em touro. Quanto mais se afasta da praia, mais se aproxima do próprio descobrimento: para ser Sidnéia, é necessário ser muitas. Vai pelo desafio e só volta com a missão cumprida.

Para o futuro: um amor. A única condição? Que saiba amar.


Sidnéia Lusia da Silva, 37
Redonda
Icapuí, Ceará State, Brazil

From the boat to freedom

Before being a woman, Sidnéia had been a boat. Raimundo Sebastião had thirteen children; eight survived. The middle child baptized the wood which took him around the world and brought him back carrying beijupirá, stingray, biquara, ariacó, sawfish, needlefish, lobster, red snapper, catfish, tarpon, yellowtail snapper, bicuda, and triggerfish. In Redonda, the verses of the old song hurt: “women on board would bring bad luck”. The girl turned a deaf ear to prejudice, but could hear the waves murmuring. At ten, she risked removing the curse. On the first trip, she did not get seasick, and some said, “The girl was born in the sea.”

From that day on she was guided by desire. Between the sky and the water, she designed freedom. From the tip of the boat, she learned to fly in the opposite direction. In order to catch lobster on one breath, she doubled in size and is no longer short. After more than 27 years of shallow and deep waters, she says the unsayable with dark eyes crossing the horizon, “Deep inside, I feel something no one else can feel.” 

After having belonged to Redonda, Sidnéia belonged to the world. When she decided to be her own creator, the sea pushed her farther away. In 2007, after participating in a documentary “about a rare fisherwoman (herself) on the coast of Ceará”, she was invited to a film festival and spent one month in Stockholm, Sweden.  In the cold weather, she wore a new shivering smile. She regained her self-esteem, lowered by the violence of those who did not want her to be free away from the water. On the other side of the Atlantic, she healed and held hands again with the girl whose courage was infinite.

If the sea is green, blue and black, she can also be a fisherwoman, a filmmaker, a massage therapist, a soccer player, a kite surfer, a Scorpio with Taurus ascendant. The more she gets away from the beach, the more she gets close to discovering herself: it takes many to be one Sidnéia. She departs driven by challenge and only returns after mission accomplished. 

For the future: one love. The only condition? To be capable of loving.