MARIA CABELÃO

Maria José do Nascimento, 64 anos
Morro de Santa Terezinha
Fortaleza, Ceará, Brasil

O mapa cabe no sorriso

Antes da palavra, é possível percebê-la pelo gesto: as mãos compridas que servem o café são feitas de gentileza. Os pés ligeiros, que atravessam a casa inteira, são ventos de julho, agosto e setembro. É Maria, mas não é santa, adverte. Não explica a sentença, apenas sorri de um jeito largo, ainda que tenha os olhos amiudados. No meio de tantas Maria e por ter cabelos compridos, virou a Cabelão.

“Eu nunca me achei bonita, sempre me achei feia”, diz, enquanto passeia por seis décadas. História de pescadora: desconfie. As fotografias contrariam a mulher que não fala de orgulho nem de coragem e tem mania de simplificar as odisseias. Teve uma profissão como outra qualquer, quer fazer acreditar. A Cabelão foi pioneira, e era mulher como qualquer homem: não fazia diferença, não queria que fizessem. Se outras tinham ciúmes dela no barco, não dava cabimento. Queria saber do peixe.

Começou no raso, ao lado do pai, nos rios de Acaraú. A precisão e a curiosidade empurraram Maria para a Fortaleza e o profundo. No mar, Maria foi pássaro. Medo? Só da terra. “O perigo aqui é o dobro do que tem lá fora”, explica.  Lá fora, o único perigo é um buraco de mar grande, uma ventania solta que pode bater na jangada e virar, mas isso não significa o fim. “Um dia a pessoa vai. Não sabe quando, mas vai”. Em duas décadas, sempre ficou.

Longe do mar há mais de vinte anos, agora cuida dos seus. De vez em quando, escafandristas sobem o morro em busca das memórias submersas. Encostada nas paredes azuis, como quem mergulha mais uma vez em si, revela um pouco e respira o resto para seguir em frente.

Observe: as águas esculpiram Maria. No rosto, traz os caminhos de cada onda navegada.


Maria José do Nascimento, 64
Morro de Santa Terezinha
Fortaleza, Ceará State, Brazil
The map of the ocean fits in her smile

Before she utters a word, it is possible to notice her by the gestures: the long hands serving coffee are filled with kindness. Her light footsteps around the house resemble the winds of July, August and September. She is Maria, but she is no saint, she warns. No explanation is given for the remark. She simply gives a wide smile, despite having small eyes.  Amongst so many and because of the long hair, she became Maria Cabelão (Lon-Haired Maria).

“I’ve never thought I was beautiful; I’ve always thought I was ugly,” she says while she reflects on six decades. A fisherwoman’s story: do not believe her. The photos contradict the woman who says nothing about proud or courage, and who tends to simplify the odysseys. She wants us to believe she had a common job. Cabelão was a pioneer and a woman just as any man; she had no prejudice, and hoped nobody would have. If other women were jealous of her on the boat, she did not care. She cared about the fish.

She started in shallow waters beside her father on the rivers in Acaraú. Necessity and curiosity pushed Maria towards Fortaleza and the deep waters. In the sea, Maria became a bird. Was she afraid? Only when she was on land. “It is twice as much more dangerous here than out there,” she explains.  Out there, the only danger is a hole in the vast sea, a strong wind that can hit and overturn the jangada raft; but that does not mean it is the end. “One day you will go. You do not know when, but you will go.” In two decades, she has always stayed. 

Away from the sea for more than twenty years, she now takes care of her family. Divers sometimes go up the dune in search of submerged memories. Leaning against the blue walls as if diving inside herself once more, she reveals a little and breathes out the rest in order to move on. 

Note: the waters have sculpted Maria. Her face shows each wave she has navigated.