MÁRCIA

Márcia Ribeiro, 40 anos
Canos Quebrada
Aracati, Ceará, Brasil

A casa no meio do mar

Márcia, pescadora de Canoa Quebrada, diz, entre dois goles de água com gelo: “Se pudesse, construía uma casa no meio do mar e ficava lá, sozinha”. Solta gargalhadas ao lado do Valdinho, a âncora que lhe fez aquietar no Ceará. Nasceu em Afogado das Ingazeiras, Pernambuco, e rodou mundo, sem barco e muita perna. Maranhão, Pernambuco, “muitos cantos, minha filha”. No equador da vida, parou pelo amor e pelo mar, há duas décadas. Tem quarenta e o sorriso não engana: é feliz na areia. Ainda assim, arquiteta planos de sereia e sonha com a casa.

Casa é diferente de barco, explica com o olhar colorido de mel, mesmo depois de tanto salgar. O desejo vai além das horas que já passa, diariamente, em cima de uma jangada, e pede um para sempre ou, pelo menos, a calma do retorno no “quando quiser”.  No mar, bem no meio dele, não enjoa, nem quando inventou o Kelvin e depois a Kimberly dentro de si. Sente medo, entende os desafios que vêm em cada onda, mas ali se vê diante do nada e do espelho.

Na praia, teve de ouvir que lugar de mulher é na cozinha. Os homens que insultavam e faziam piada logo comiam o peixe que chegava até ali pelo fôlego e braços de mulher. Não juntou a mágoa, e a cada mergulho fez-se mais forte e teimosa. Ninguém era dono do caminho, muito menos quando o caminho era o mar. Lá aprendeu a lutar e, agora, batalha pelos direitos de dois mil homens e duas ou três mulheres que fazem parte da Z-12, colônia de pescadores da qual é uma das lideranças, em Aracati.

Lá no começo, quis a mãe que se chamasse Márcia, sem saber que, já no nome, sentenciava a mulher que se apaixonou pela água. Com os anos, aprendeu que o tempo é escuridão e noite clara. Despenteia, mas também coloca as coisas no lugar. Já planejou: quando for tarde da vida, subirá no barco de bengala e, outro dia, será enterrada em um caixão de pedra bem lá no fundo, nunca embaixo da terra.

Uma concha guarda o segredo: se o mar fosse gente, Márcia casava com ele.


Márcia Ribeiro, 40
Canoa Quebrada
Aracati, Ceará State, Brazil

The house in the middle of the sea

Márcia, a fisherwoman in Canoa Quebrada, says between two gulps of ice water, “If I could, I’d build a house in the middle of the sea, and would stay there, alone.” She laughs out loud beside Valdinho, the anchor who made her settle down in Ceará. Born in Afogado das Ingazeiras, in Pernambuco State, she travelled around, not sailing, but on foot: Maranhão State, Pernambuco State, “lots of places, my dear”. Two decades ago, once at the Equator, she stopped because of her love and the sea.  She is forty and her smile leaves no doubt: she is happy by the sea. Still, she keeps a mermaid’s architectural plan and dreams with the house. 

“A house is different than a boat,” she explains, with honey brown eyes, even though they have been salted for too long. The desire goes beyond the daily hours she already spends on a jangada fishing raft, longing for a permanent one, or at least for the calm return “whenever I feel like it.” At the sea, right in the middle of it, she never gets seasick; not even when she created Kelvin and Kimberly in her mind. She faces fear, understands the challenges brought by each wave, but then finds herself facing nothingness and the mirror.

At the beach, she was told a woman’s place is in the kitchen. The men who insulted and made jokes soon ate the fish brought through a woman’s breath and arms. She endured no sorrow and each dive made her stronger and more obstinate. Nobody knew the way, especially when the way was the sea. She learned to fight in the sea; and now she fights for the rights of two thousand men and two or three women who are members of the Z-12, a fishermen’s colony in Aracati, of which she is one of the leaders.

Her mother named her Márcia, not knowing that, with that name, she set the destiny of the woman who fell in love with the water.  As the years passed by, she learned that time means darkness and a clear night. It ruffles, but it also puts things into place. She has already planned: in late life, she will step onto the boat using a cane, and the next day she will be buried in a stone coffin deep down in the sea, but never under the earth.   

A shell keeps the secret: if the sea were human, Márcia would marry it.